quarta-feira, 30 de março de 2011

Comunicação e Poder


Comunicação e poder, são dois supra conceitos que podem enveredar por diversas variações de sentido e complexidade por parte dos teóricos da comunicação, algumas delas possuem pontos conflitantes, mas que se baseiam sobre um problema normalmente comum a ambos, isto veio a tona segundo João Carlos Correia (org) no momento em que os estudiosos nos campos acadêmicos perceberam a relação cada vez mais profunda que existe entre comunicação e política.
Esta mudança pode ser percebida quando temos uma queda do poder religioso típico da idade média, quando desde o nascimento o individuo já tinha definido o seu destino, todos os caminhos que percorreria na vida. E a ascensão de um poder plural e disseminado em diversos pontos, que precisa de um artifício para se manter na liderança dos demais indivíduos, neste momento temos o perfil da comunicação sendo traçado, o uso do discurso leva a validação de uma idéia e esta idéia valida o poder do detentor da mesma. Mas isto precisa ser validado pela sociedade e é nessa validação que entra a repetição do discurso comunicativo.
Um problema surge em cima do exposto anteriormente. Se o discurso valida uma posição ele logicamente invalida outra, o ato de comunicar em si, não dá poder aquele que comunica, se faz necessária a aceitação pelos seus pares do conteúdo lançado e a supressão da resistência a este conteúdo para que a comunicação seja eficiente e eficaz para o sentido a que ela se propõem
Segundo José Manuel Santos (citando Kafka), as relações entre comunicação e poder podem ser expostas em três estágios.
1º) Caracterizado pela complementaridade de poder entre as fontes de poder e a capacidade de os exercer a distancia, seria a relação entre rei e mensageiro, na concepção de estender sua presença para além da presença física produzindo uma presença destendida em um espaço físico maior do que aquele em que a fonte de poder se encontra.
2º) É a crise do modelo de comunicação ideal, quando o espaço teológico perde força, um espaço plural faz repensar as condições de emissor e de receptor, logo o centro de irradiação do poder, deixa de ser claro, sofrendo uma disseminação orgânica.
3º) Em resposta ao segundo estágio, há uma acomodação do mensageiro e do receptor, a mensagem, ou a utilização do poder que elas continham, não surge mais o efeito desejado.
Um quarto estágio está sendo esboçado na idéia de redes em que a tentativa de interação entre os o emissor da mensagem, o mensageiro e o receptor da mensagem, se sustenta num fluxo e contrafluxo continuo de informações, impressões e troca de opiniões.
Este esquema se sustenta sobre a emissão de um poder valido, temporal e normalmente político, mas é importante lembrar que o caráter político não é único meio de exercício do poder, diversas outras formas podem ser consideradas sob diferentes aspectos.
Segundo a professora da Universidade de São Paulo, Sidinéia Gomes Freitas.  “Os valores são transmitidos por meio da comunicação. O indivíduo comunica sua cultura a começar pela vestimenta que usa no trabalho, passando por seus hábitos, suas atitudes. Ele está o tempo todo se comunicando pelo olhar, pelo gesto, pela escrita, ele está, na verdade, mostrando valores.”
O pensamento da professora da USP dá abertura para que se entenda o processo de comunicação em cima de toda a relação existente entre indivíduos e que cada relacionamento abre um ideal de dominação entre o emissor da mensagem e o seu receptor, seja no aspecto micro, ou no aspecto macro, mas esta relação de dominação, tem um aspecto local, poderíamos usar a expressão de um poder locar e individual.
A partir dessa reflexão depreende-se a utilização do poder sobre o ambiente micro, ou sobre ambiente macro, temos que observar que para a teoria critica esse poder micro não é considerado, já que o que interessa neste instante é o alcance cultural e social das mensagens, isto é, a macro estrutura deve ser o ponto de partida para o entendimento das relações de poder exercidas na sociedade, já que o poder paterno, que é um poder micro, por exemplo é contraposto ao poder de inserção midiático global, com a criação de padrões de comportamento, vestimentas, comportamento e ações, o detentor da comunicação, ou o responsável pela criação da emissão toma para si as condições ideais de manipulação e controle dos demais envolvidos nos processos comunicativos.
Sob esse aspecto de dominação do macro sobre o micro, os meios de comunicação são entendidos como empresas que vivem de comunicar e que tem o domínio do poder, esse poder então deixa de se restringir as esferas governamentais, o que defendia José Manuel Santos em seu modelo de estágios que acontecia no período feudal e depois também no absolutista. Para ser distribuido para a comunicação que alastra seus interesses particulares, e econômicos para diversas instancias sociais, e se relacionam com os órgãos oficiais, disputando o controle da sociedade a que eles pertencem.
Sobre isso discorre Theodor Adorno:
“sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositadamente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos”. Adorno (1985,114)

De acordo com a interpretação de Adorno, no sistema capitalista a indústria cultural cria e impõe métodos de reprodução de bens, que são padronizados para satisfazer necessidades que são vistas como iguais para todos os individuos que fazem parte daquele meio. O poder econômico dos mais fortes é o próprio poder da racionalidade técnica predominando numa sociedade desprovida de criticidade e alienada de si mesma.
Dentro desta relação de poder e dominação os monopólios culturais são vistos por Adorno como fracos e dependentes, dando por fim razão aos verdadeiros donos do poder para que a sua esfera na sociedade de massa não seja submetida a uma série de expurgos.
Um exemplo desse conceito de Adorno poderia ser aplicado a recente situação de (re) negociação dos direitos de transmissão do campeonato brasileiro de futebol. Um monopólio de diversos anos foi destituído por conta de relações não apenas financeiras, mas principalmente relacionadas aos entraves relacionais que anos de “parceria” causaram. Este exemplo difere do Adorno, quando não existe nele a participação direta da sociedade na sua eliminação, na verdade a sociedade continua a margem da verdadeira problematização desta negociação. O que não impediu, no entanto, a sua manifestação esporádica, contra ou favor de determinada postura adotada, entretanto a “massa” dos expectadores de futebol não é responsável pela decisão de quem transmitirá, esta condição foi alienada dela.


Fontes
Teorias da comunicação: José Manuel Santos e João Carlos Correia (org). Série estudos em comunicação. Universidade da Beira Interior – Covilhã.Portugal
Comunicação e Poder: João Carlos Correia (org). Série estudos em comunicação. Universidade da Beira Interior – Covilhã.Portugal
Teorias da Comunicação. Mauro Wolf. UFMA
Revista Cult. Edição 154, publicado em 7 de fevereiro de 2011. Acessado em www.revistacult.uol.com.br
Comunicação, Poder e Cultura Organizacional. Professora Sidinéia Gomes Freitas http://www.aberje.com.br.

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